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terça-feira, 26 de julho de 2011

Férias

Não sei tirar férias. Muitas vezes não sei nem parar para respirar. Mas estou tentando. E nos últimos dias, conseguindo. Não consigo tirar férias 100%, tipo ficar dias sem fazer nada. Aliás, a neurose é tanta que só em pensar de ficar horas sem fazer nada me agonia.

Portanto, estou me dando horas para fazer nada. E fazer nada, pra mim, significa: bater perna por ai, comprar coisinhas úteis/fúteis, comer, arrumar aquela estante que estou prometendo há dois semestres, tirar as roupas que não uso mais e levar para doação, ler revistas e blogs, espiar o FB dos outros (adoro ver as fotos!), dormir, ver TV (não na tv literalmente, adoro ver filme e seriado online - viva a internet!), mandar mensagem/email/msn/recado para @s amig@s e familiares, passear, brincar com os cachorros e o gato (sim, junto com o namorado ganhei 3 cachorros e 1 gato - estamos nos acostumando uns com os outros), ler poesia, ler revista de fofoca, pintar as unhas. Bem, é bastante coisa. Pelo menos são coisas que não preciso marcar na agenda e só o fato de não ter nada na agenda já é libertador (devo confessar que um pouco aterrorizador também).

Lembrei agora de uma amiga que amo muito que tentou me ensinar a não fazer nada. Ela diz: relaxa o corpinho. E eu, teimosa, respondia: não sei relaxar. Bem, espero que a resposta seja diferente no nosso próximo encontro.

Vou lá fazer nada mais um pouquinho...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

"Onde é que há gente no mundo?"

Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Cia. José Aguilar Editora, 1972. p. 418.
Disponível em: <http://www.releituras.com/fpessoa_linhareta.asp>


Declamado por Paulo Autran disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=3dRchZ-vRAI